João Lourenço ainda não abandonou a intenção do terceiro mandato

João Lourenço (JL)ainda não abandonou definitivamente a intenção de estender o seu mandato presidencial para além de 2027 – uma opção que preferem o próprio e círculos do poder em que se apoia. A hipótese de se fazer substituir por uma personalidade “moldada” às suas conveniências (da sua inteira confiança e disposta a aceitar o seu ascendente político) ainda é vista como “uma alternativa”.

A “indefinição” que análises habilitadas identificam na atitude de JL em relação ao seu futuro político é remetida para considerações do próprio e dos seus apoiantes como a de que ainda se está numa fase muito precoce para uma tomada de decisão. No seu entendimento, o momento certo para uma decisão final será o Congresso do MPLA de 2026, até porque a mesma dependerá de circunstâncias que ainda não se vislumbram.

Na perspectiva de figuras influentes do círculo de poder de JL, tais circunstâncias serão determinadas por factores entre os quais são valorizados os seguintes:

  • Evolução da situação político-social interna; idem da geopolítica regional e internacional.
  • O resultado de um esforço já posto em marcha com fim de melhorar a imagem de JL e do seu regime no plano interno.
    A ideia de que o recente congresso extraordinário do MPLA, 16-17.DEZ, correspondeu apenas à pretensão de JL de criar condições para vir a influenciar/condicionar o processo da escolha de um “sucessor” na PR, é considerada redutora nas referidas análises. A hipótese da extensão do mandato de JL como PR também foi “deixada em aberto”, embora careça de ser completada com uma alteração da Constituição.
    A pré-anunciada oposição interna às pretensões de JL de alterar os estatutos do partido e proceder a uma renovação a seu favor dos seus órgãos dirigentes, não se manifestou, aparentemente por “esmorecimento” dos putativos opositores. A saber:
  • As alterações introduzidas nos estatutos do partido corresponderam no essencial (sentido e alcance) aos termos desejados por JL.
  • O controlo que JL já tinha do Bureau Político (BP), em especial do seu secretariado (um órgão de 18 membros, geralmente apontado como principal centro de decisão política do país), saiu reforçado.

A continuação no BP de dirigentes cujo afastamento terá sido pretendido por JL – BORNITO DE SOUSA, FERNANDO DA PIEDADE “Nando” e VIRGÍLIO FONTES PEREIRA, entre outros – foi amplamente compensada pela entrada de outros, considerados afectos – VIEGAS de ABREU e DIAMANTINO AZEVEDO (DA), p. ex. O único quadro não eleito foi BATISTA BORGES, ministro da Energia e Águas.

A permanência no BP de um reduzido número de quadros geralmente conotados como “avessos” a JL é considerada insignificante, tendo em conta a grandeza da composição do mesmo – mais de 100 membros. Aproveita igualmente a JL como manifestação de um espírito de tolerância política.

DA, actual ministro dos Recursos Naturais, Petróleo e Gás, é descrito em meios internos como uma figura de apagada carreira partidária e de escassa vocação política. Passa, porém, por ser muito próximo de JL, uma condição advinda do facto de o ter “amparado” numa fase de marginalização política pela qual passou.

A nomeação de uma nova vice-presidente do partido, MARA QUIOSA (MQ), é, porém, a “renovação” mais valorizada nas referidas análises. MQ é vista como uma “indefectível” de JL, em muito maior escala que a sua antecessora, LUÍSA DAMIÃO. Os alegados “escândalos familiares” apontados como razão de ser do seu afastamento desta, terão constituído um mero pretexto.

Dos sentimentos de antipatia internamente votados a MQ fazem parte “razões” entre as quais o seu espírito de sectarismo e intolerância, bem como as suas rudes maneiras – perversões alegadamente reveladas nos cargos de governadora e dirigente partidária local de três províncias em que sucessivamente esteve colocada – Bengo, Cabinda e Cuanza-Sul. É parente de JOSÉ FERREIRA TAVARES, vulgo “general Tavares”, um homem que em ligação com o gabinete da PR e do SINSE leva a cabo missões encobertas junto da população (AM 1328).

A capacidade de um congresso extraordinário para efectuar mudanças estatutárias foi posta em causa por quadros do partido e deu mesmo lugar à apresentação de uma providência cautelar (AM 1484) visando a sua suspensão.
Os dois últimos quadros a manifestar reservas quanto à legalidade do congresso foram os juristas RAUL ARAÚJO, antigo presidente do Tribunal Constitucional, e o advogado SÉRGIO RAIMUNDO.

O óbice que as elevadas taxas de impopularidade de JL e do seu regime representam para os seus “planos de poder”, independentemente da sua natureza, é considerado a “razão de ser” do esforço de melhoria da sua imagem (acções já em prática ou delineadas) e internamente vista como um imperativo.

O recurso à fraude eleitoral é mais um “custo” num ambiente de manifesta impopularidade do regime.

O recurso à fraude eleitoral, também depende de factores como aquele que vier a ser o desfecho da crise pós-eleitoral irrompida em Moçambique por efeito de uma contestação popular ao regime. Uma solução para a crise que não deixe a FRELIMO numa posição dominante é vista como tendendo a dificultar a fraude em Angola.

A crescente sensibilização da população para problemas do país instintivamente atribuídos àquilo que se considera ser a má governação de JL, é a causa principal da sua impopularidade. Levantamentos credíveis da situação apontam os seguintes como sendo os problemas mais ingentes: são os seguintes:

  • A população do país é constituída por 1/3 de desempregados ou camadas de famintos e subnutridos.
  • Cinco milhões de crianças estão fora do sistema escolar.
  • Acentuação de desigualdades sociais, inclusive por efeito de uma crescente afirmação de tendências das elites para a ostentação.
  • Emigração sem precedentes.
  • Aumento constante do custo de vida por efeito de perda contínua do valor do Kwanza e do aumento da inflação (AM 1481).
  • Decréscimo de sectores de actividade vitais, entre os quais o da Agricultura.

O regime espera melhorar a situação no país em resultado de um esperado aumento do investimento público e privado. Conta igualmente criar uma percepção nesse sentido através de acções de propaganda, como o aproveitamento que está previsto fazer das comemorações do 50º aniversário da independência. Os principais instrumentos a usar serão a comunicação social e os lobbies externos.

A promoção da ideia de que JL é um estadista com aceitação e/ou prestígio internacional é privilegiada nos esforços tendentes a melhorar a sua imagem. A recente viagem de JOE BIDEN a Luanda (AM 1478) foi aproveitada com esse fim. Uma agência internacional de sondagens, a Global Insights Agency, divulgou recentemente um relatório enaltecendo a figura de JL (capacidade de liderança, promoção de políticas sociais e de transparência, etc).

Dos planos visando melhorar a imagem de JL e do seu regime também fazem parte acções de diferente natureza para dividir/enfraquecer a oposição, como forma de eliminar/reduzir a capacidade para aglutinar descontentamentos que tem revelado. O cálculo político a que obedeceu a inesperada legalização do partido PRA-Já Servir Angola (AM 1477) foi o de minar a FPU, uma plataforma eleitoral liderada pela UNITA e da qual é parte a formação liderada por ABEL CHIVUKUVUKU.

Fonte: AM

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *